QUEM É O INIMIGO?

25 Jun


Foto: O Globo

NOVA POLÍTICA DE SEGURANÇA PÚBLICA PROVOCA DÚVIDAS QUANTO A SUA EFICIÊNCIA E SEU REAL OBJETIVO.

O discurso pode parecer político. Talvez realmente seja, mas o fato é que a implantação das Unidades de Polícia Pacificadora, as UPPs, no Rio de Janeiro, trouxe de volta certa sensação de segurança e tranquilidade para a população carioca. É o que mostram, constantemente, os dados publicados pelo Instituto de Segurança Pública do Estado (http://www.isp.rj.gov.br). Eles apontam uma redução considerável na maioria dos mais de 20 índices de violência analisados. Mas há quem duvide desses números e garanta que eles não revelam a verdade, ou pelo menos, camuflem a realidade. Para parte da população, principalmente as pessoas que convivem diretamente com a nova política de segurança, a violência apenas mudou de fisionomia e foco. E nem é preciso assistir o filme Tropa de Elite para entender o que se quer dizer com isso.

Difícil mesmo é saber quem é o inimigo agora. Se o poder do Estado expande seu controle e finca sua bandeira estrategicamente em “território inimigo”, por sua vez, a ação policial gera controvérsias. A polêmica existe e, apesar de velada, provoca discussões intermináveis entre os defensores da ação e os que sentem na pele o estrago causado pelos “homens da lei”. Carro chefe da campanha eleitoral de Sérgio Cabral, As UPPs têm o objetivo de retomar o controle das áreas dominadas pela criminalidade. A proposta é devolver a paz e acabar de uma vez por todas com a tirania imposta pelos traficantes a diversas comunidades da cidade.

http://www.youtube.com/watch?v=tK7DkKV7pIY

Entretanto, o que se questiona é exatamente essa convivência entre os habitantes das favelas e a Polícia. Salvo pelas guerras entre facções, segundo boa parte dos moradores, a relação entre eles e os bandidos sempre foi amistosa, diferentemente dos novos significados. A primeira comunidade apaziguada em 2008, o morro Dona Marta, em Botafogo, foi o pontapé inicial na consolidação do monopólio do poder do Estado. O modelo ensaiou os primeiros passos de uma aproximação entre a população e a Polícia por meio do fortalecimento de políticas sociais. Cinira Sampaio, 39 anos, nascida e criada no morro, ainda se lembra do primeiro dia da ocupação policial. “Impossível esquecer. Eles me acordaram às 4h da madrugada e já chegaram arregaçando. O cartão de visita da Polícia não foi simpático e é assim até hoje”, revela a produtora cultural.

Foto: Reinaldo Marques / Terra

Passados quase quatro anos da implantação do regime, a relação continua difícil. “Para eles, na favela todo mundo é bandido até prova contrária. Na quadra, os policiais se acham os reis. São piores do que os traficantes. Os bandidos, ao menos, eram gente como a gente”, conta Cinira. Ruim com elas, pior sem elas. Creditam-se as UPPs, o reflexo nas quedas do número de roubos (5.571 casos em maio de 2012 contra 5.695 no mesmo período do ano passado), homicídio doloso (redução de 6,5%) e roubos em coletivos (11,6% menor). Na contramão do que dizem alguns dos moradores das comunidades pacificadas, o Secretário de Segurança do Governo Sérgio Cabral, José Mariano Beltrame, em entrevista para a BBC Brasil no último dia 15 de março, afirmou que a população abraçou o sistema. “Eu digo hoje que a Unidade de Polícia Pacificadora está nas mãos da sociedade. Dificilmente alguém vai chegar ali e conseguir parar com esse movimento”.

http://www.youtube.com/watch?v=FQi8985MtVs

A dúvida é saber a qual sociedade Beltrame se refere. De acordo com a última pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE, a incidência de pobreza na população carioca beira os 33%. Conforme a análise, o mapa apresenta a concentração dessa ocorrência em famílias residentes nas favelas. Essa disparidade social, lugar comum no processo, se revela como um dos principais fatores para a explosão da violência. Os reflexos podem ser notados no número de ocorrências policiais registradas nas comunidades pacificadas. Dos 13 primeiros complexos vigiados pela Polícia (Dona Marta, Formiga, Macacos, Pavão/Pavãozinho, Cidade de Deus, Tabajara, Andaraí, Batam, Providência, Salgueiro, Chapéu Mangueira/Babilônia, Borel e Turano), 9 apresentam aumento nos índices de violência. Em 2008 foram registradas 4249 ocorrências, enquanto em 2011, os crimes chegam a 6526. O Batam e os Macacos são os que mais perceberam o problema. A diferença chega a assustadores 125,9% e 77% a mais de 2011 em relação ao ano anterior.

Mas não é só a diferença social a grande vilã da história. A relação de poder e o preconceito são fatores determinantes no tratamento adotado pela corporação. Para Daniel Manhães, estudante,18 anos, morador de Inhaúma, Complexo do Alemão, o problema maior é a falta de preparo. “O preconceito e o abuso de autoridade são latentes. As pessoas andam de cabeça baixa com medo dos homens de farda”, afirma. Ele ainda vai além se o assunto é tranquilidade. “Antigamente não existiam roubos por aqui, agora isso mudou completamente. Antes do Exército e da Polícia, os moradores sabiam por onde circular e o que poderiam fazer. Hoje, aqui todo lugar é perigoso”.

Foto: Renata Mariz / Correio Braziliense

Talvez ainda seja cedo demais para se poder avaliar a medida com precisão. Se ela tem suas virtudes, é vista por alguns apenas como mais uma manobra politiqueira com o intuito de colocar os que vivem a margem da sociedade em cativeiros permanentemente vigiados. Formada pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, a socióloga Renata Feital compartilha desse pensamento. Ela acredita que o papel do Estado seja muito claro diante da sociedade. “A Polícia atua como uma instituição criminosa autorizada pelo Governo. À ela cabe o julgamento e a punição”.

http://www.youtube.com/watch?v=Z6jqKMXiOVk

Segundo Feital, não basta combater o crime organizado somente pelo uso do poder. “A educação e as políticas afirmativas de valorização do negro e do pobre são fatores essenciais na construção de uma sociedade mais justa. Matar bandido é limpar a consciência do Estado de suas próprias responsabilidades. É preciso investir em pontos de cultura e inclusão, mas o que se vê são filtros estabelecidos conforme o interesse da elite” finaliza a socióloga.

Foto: O Globo

Longe de uma conclusão satisfatória, as opiniões divergem, mas vislumbram dias melhores para os cidadãos cariocas. Enquanto a busca por soluções convincentes parece distante de uma reta de chegada, a política de segurança pública do Governo Cabral continua atuante. Para 2012, a previsão é a instalação de mais Unidades de Polícia Pacificadoras. Resta saber o que dirão os índices de violência. Por ora, a propaganda é positiva e a sensação de paz prevalece.

“Registros no asfalto”

OS NÚMEROS DA VIOLÊNCIA NO RIO

De acordo com o Instituto de Segurança Pública, dos mais de 20 índices de violência analisados, a maioria mostra queda da violência no Estado. Em entrevista para o G1, o subsecretário de Planejamento e Integração Operacional da Secretaria de Segurança, Roberto Sá, disse que uma vez percebido o aumento da violência, as medidas corretivas são imediatas. Os dados disponíveis pelo Governo no site do ISP relacionados à segurança pública, com enfoque específico na área da Unidade de Polícia Pacificadora da comunidade Dona Marta, não revelam muito e podem trazer outro significado como o descrédito da Instituição. Os registros apresentados foram efetuados em delegacias policiais da área. Outro dado interessante é a redução do número de pessoas vítimas de balas perdidas. Segundo o Relatório do Governo, houve queda percentual do ano passado para 2007 de -68,5%.

População confia cada vez menos na polícia

Discriminação e violência na abordagem policial. Desconfiança e medo. Essas são apenas algumas das  razões indicadas pelo SIPS (Sistema de Indicadores de Percepção Social), do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) para justificar o distanciamento da sociedade com as instituições responsáveis pela segurança pública. O estudo realizado em 2010 aponta que os habitantes da região Sudeste do país são os mais desconfiados. Somente 3% dos entrevistados afirmaram ter muita confiança nas polícias Militar e Civil. Segundo a pesquisa, 75,15% disseram confiar pouco ou não confiar na atuação dos policiais. A pesquisa mostra ainda que a polícia civil foi a instituição com a pior avaliação da sociedade.

Fonte: http://www.ipea.gov.br/portal/images/stories/PDFs/SIPS/sips_segurancap_2010.pdf

“As revoluções são a locomotiva da história.” Karl Marx

31 Mar

 

 

A máxima de que a juventude é um estado permanente de ebulição, há tempos deu lugar à turma do galo cantou não sei onde. As novas gerações, perdidas no tempo e no espaço virtual, dão mostra de que as cabeças pensantes andam mesmo conflitantes. Débeis para sermos mais precisos. Há certa rebeldia contra não se sabe bem o quê. Por esse motivo, o FALAFIADA nasce para trazer um jornalismo sem rabo preso e sem medo de dar a cara a tapa. Se não há mudança sem conflito, a guerra está declarada. Seja bem-vindo à luta!